Mulheres, homens e a saúde mental na pandemia

Por Tatiana Sendin, jornalista e fundadora da Think Work Lab

Desde antes da pandemia, mulheres reportam níveis de estresse relacionado ao trabalho mais elevados que os homens. De modo geral, ainda cabe a elas a responsabilidade maior pelo cuidado da casa, dos filhos e dos pais idosos – tarefas que se somam às obrigações profissionais. E esse peso foi reforçado pela pandemia e as precauções adicionais que se impuseram.

É o que demonstra uma pesquisa realizada pela Think Work com o objetivo de mapear a saúde mental dos profissionais no Brasil. Entre as mulheres, 72% se dizem mais cansadas do que antes da crise sanitária, ante 56% dos homens. Além disso, 70% delas afirmam que houve uma piora no volume de trabalho, enquanto 51% deles dizem o mesmo. Daí a relevância de discutirmos esses dados neste Dia Internacional das Mulheres.

O levantamento – que compilou respostas detalhadas de 223 pessoas entre janeiro e fevereiro –, não é, obviamente, um tratado de posições definitivas sobre temas tão complexos. Em vez disso, devemos olhá-lo como uma fonte adicional de inquietações e perguntas que podem ajudar a iluminar a tomada de decisões nas empresas.

Dito isso, um dado na pesquisa nos chamou a atenção: mulheres com filhos relataram menos sofrimento emocional do que mulheres sem filhos. De acordo com o estudo, 43% das mães afirmaram se sentir bem na maioria dos dias, resposta dada por apenas 28% das mulheres sem crianças. Números semelhantes foram observados entre os homens com e sem filhos: 45% e 31%, respectivamente.

A diferença surpreende porque o fechamento das creches e das escolas – ou mesmo a impossibilidade de se recorrer a babás ou avós e avôs, nos períodos mais críticos da pandemia – tornou ainda mais difícil o desafio de se conciliar o trabalho com a criação dos filhos. Talvez a proximidade maior com a família (e com os filhos) tenha sido um fator positivo para a saúde mental das pessoas. Ou, talvez, as mães tenham mais dificuldade em reconhecer que estão mal emocionalmente, por terem de passar para a sociedade e para os seus filhos a imagem de que está tudo bem.

Por outro lado, pode ser que as pessoas sem crianças tenham ficado mais isoladas durante a pandemia, o que teria afetado seu bem-estar emocional. Além disso, infelizmente, ainda é comum na sociedade o estigma de que a vida da mulher teria menos significado sem filhos – outro fator que pode ter contribuído para essas respostas.


De todo modo, é preciso fazer uma ponderação quando analisamos as diferentes respostas entre homens e mulheres a questões relacionadas à saúde mental e emocional. Seriam elas mais transparentes do que eles? Os mesmos estereótipos de gênero que colocam sobre as mulheres um fardo extra em relação ao cuidado dos filhos e da casa também podem contribuir para que os homens estejam menos abertos para falar sobre suas aflições e fragilidades – e, consequentemente, menos propensos a buscar ajuda.

É o que sugere outro dado da pesquisa da Think Work. Nos últimos três anos, 71% das mulheres procuraram apoio para cuidar da saúde mental, contra apenas 43% dos homens. É importante que os RHs tenham esse cenário em mente quando desenharem sua estratégia de apoio à saúde mental dos funcionários. A necessidade de se criar um ambiente empresarial no qual as pessoas – independente do gênero – se sintam seguras em assumir que não estão bem é urgente.

O burnout, a sensação de esgotamento causada pelo trabalho, está cada vez mais generalizado e tende a ser subnotificado, segundo a consultoria McKinsey. Em um relatório global sobre o futuro do trabalho, a McKinsey revelou que 49% dos profissionais afirmam se sentir ao menos “de alguma forma esgotados pelo trabalho”. Números como esse, somados à decisão recente da Organização Mundial da Saúde (OMS) de reconhecer oficialmente o burnout como doença ocupacional, só reforçam a teoria de que a saúde mental de todo mundo – sejam homens seja mulheres – está por um fio.

É importante que cada organização aborde a questão da saúde mental com curiosidade e vontade de se aprofundar nos dados, realizando pesquisas para entender tanto o estado de saúde emocional dos profissionais quanto suas necessidades. E, nesse trajeto, é fundamental que o RH evite, a todo custo, basear ações e decisões em lugares comuns, estruturando práticas só de fachada, sem nenhum valor efetivo.

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